A misoginia e seus reflexos nos ambientes políticos e corporativos

As mais puras formas de difundir o preconceito, atualmente, ocorrem por meio de atos de misoginia (desprezo e/ou aversão a mulheres), homofobia, machismo e racismo. Para algumas pessoas, essas atitudes são simplesmente brincadeiras, sem quaisquer intenções de prejudicar ou ferir o próximo. Entretanto, na verdade, são atos que manifestam o preconceito, considerado crime, pois fere a integridade humana.

Essas ações negativas estão presentes no dia a dia de todos nós, sendo vistas e sentidas em âmbito social, corporativo, intelectual, estudantil e até familiar, inclusive, envolvendo formas de relacionamento íntimo. Muitas vezes, as atitudes são realizadas até mesmo de forma inconsciente, sem que haja o intuito direto de gerar tal ato preconceituoso, de tanto que a vertente que gera a ação já está incorporada a psique humana ou social. Porém, ainda assim, é necessário combater essas atitudes constantemente e discuti-las cada vez mais entre as crianças, jovens, adultos, e em todo ambiente que possam estar inseridas.

É necessário ter em mente que, com o avanço tecnológico, com a disseminação e integração de informações, culturas e de conhecimentos, é alto o preço da negligência com as questões que envolvem todo tipo de preconceito, em especial o de gênero e, neste caso, principalmente, contra as mulheres. Isso, em especial, pela facilidade de viralização nas redes sociais e no meio digital.

Diante dessa percepção, a Lei 13.642, de 3 de abril de 2018, amplia essa temática. A legislação inclui no artigo 1º., da Lei 10.446/02, um inciso VII, concedendo à Polícia Federal a atribuição para investigar “quaisquer crimes praticados por meio da rede mundial de computadores que difundam conteúdo misógino, definidos como aqueles que propagam o ódio ou a aversão às mulheres”, conforme cita o documento.

Misoginia e machismo em cenário político

No último dia 25 de junho, a pré-candidata à presidência da República nas próximas eleições de outubro, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), foi entrevistada no Roda Viva, da TV Cultura. Durante o programa, as interrupções feitas pelos entrevistadores causaram incômodos na convidada e nos telespectadores, assim como em todas as pessoas que acompanharam o episódio nas redes sociais. As atitudes dos comunicadores geraram, inclusive, denúncias de machismo e misoginia.

Segundo a Secretaria Nacional de Mulheres do PT (SNMPT), a entrevista de 70 minutos rendeu à Manuela D’Ávila, ao todo, 62 interrupções – enquanto, no mesmo programa, o também pré-candidato do sexo masculino, Ciro Gomes, foi interrompido apenas oito vezes. Na bancada de entrevistadores de Manuela D’Ávila, estavam presentes Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e comentarista da Rádio Jovem Pan; Frederico d’Avila, diretor da Sociedade Rural Brasileira (SRB); Letícia Casado, jornalista da Folha de S. Paulo em Brasília; João Gabriel de Lima, coordenador de jornalismo do Insper e colunista da revista Exame; e Joel Pinheiro da Fonseca, economista e filósofo. Todo o programa pode ser revisto, na íntegra, no canal do Youtube.

 

 

Ao notar as inúmeras interrupções, Manuela chegou a disparar algumas frases que corroboraram para a sua viralização nas redes sociais e para a polêmica do episódio. “Deixei você falar bastante, mas eu queria retomar a palavra como entrevistada, se tu permitires, pode ser?”, rebateu a pré-candidata a um dos coordenadores da campanha de Jair Bolsonaro (PSL). Outro exemplo foi quando questionou o economista Joel Pinheiro, ao citar “Eu posso terminar alguma frase?”. E, por fim, Manuela disse algumas vezes aos presentes que “Vocês gostam mais de falar do que eu. É fantástico”.

Perante a alta polêmica da entrevista e a atenção causada, principalmente nas demais mulheres, a pré-candidata se pronunciou. “É revoltante o que houve. Mas é assim todo dia com as mulheres, e não só na política: no trabalho, na universidade, em casa. Por isso não quero que pensem e tratem o que aconteceu como uma coisa excepcional. Até porque a palavra vem de exceção, né? O que aconteceu é a regra e não a exceção! É assim que nós mulheres fazemos nossa luta e vivemos nossa vida todo dia”, disse a presidenciável do PCdoB.

Além dessas percepções que enaltecem o machismo e misoginia, ademais das interrupções para a então possível candidata, os entrevistadores se pautaram em fazer poucas perguntas coerentes sobre suas propostas de governo. Eles preferiram insistir em questionamentos que citassem o ex-presidente Lula. “Todos nós aqui sabemos porque o ex-presidente Lula está preso. Ele está preso porque é primeiro nas pesquisas. Todo o povo brasileiro sabe”, retrucou Manuela, de forma irônica, em um dos exemplos que demonstraram tamanho desrespeito e falta de profissionalismo e ética dos presentes. Cenário que demonstra, inclusive, o que as próximas eleições reservarão a essas mulheres que pretendem a disputa, mesmo após o Brasil ter sido comandado pelo sexo feminino.

Com a tamanha indignação do público e da entrevistada, até mesmo a ex-presidente Dilma Rousseff se solidarizou com a deputada. Na oportunidade, Dilma disse que Manuela foi alvo de ataques machistas e misóginos. “Foi interrompida dezenas de vezes para que não pudesse concluir as respostas. Um chefe de campanha de Bolsonaro foi convocado para insultá-la. Mas Manuela foi corajosa e firme. Saiu do programa engrandecida, como política e como mulher”, ressaltou a ex-presidente.

Diante da presença de Dilma perante esse cenário, é impossível não associá-la a sua entrevista cedida há, aproximadamente, dois anos e que foi publicada pela revista estadunidense Time. Nela, à época, a presidente afastada Dilma Rousseff classificou como “misógino” o processo de impeachment a que estava sendo submetida. A declaração da ex-presidente se deu a partir da pergunta se ela considerava o impedimento como um processo sexista.

 

 

Dilma afirmou ainda que “o fato de uma mulher ter se tornado a primeira presidente da República do Brasil dá origem a uma avaliação muito estereotipada, em que é dito que as mulheres são histéricas, ou quando não são isso, são insensíveis, frias e sem coração”, concluiu.

Episódio de assédio no Mundial da Rússia

Além desses episódios envolvendo o meio político e eleitoral, a Copa do Mundo na Rússia está mostrando que o machismo não tem realmente fronteiras, condição totalmente alheia ao futebol. Em menos de duas semanas, o evento já havia demonstrado que diversas nacionalidades também são marcadas por atos machistas, em especial o Brasil.

Desde então, há exemplos marcantes que viralizaram na internet e que expõem como as mulheres vêm sendo vítimas de assédios em diferentes cidades do país, sejam jornalistas, cobrindo o evento, ou torcedoras, participando dele.

Uma das cenas lamentáveis foi protagonizada por brasileiros, homens, contra uma russa. Sem que ela entendesse o que estava sendo dito, os homens impulsionaram a jovem a repetir palavras de baixo calão fazendo referência às suas genitálias por meio de frases em português, que afirmavam um pseudo interesse em um relacionamento sexual.

Após a alta repercussão, esses brasileiros foram identificados e são, atualmente, alvos de inquérito criminal no Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF-DF), além de pessoalmente terem suas vidas profissionais e sociais expostas e abaladas.

 

 

Diante da reverberação em âmbito internacional, um dos homens que apareceu nas imagens foi demitido pela empresa na qual trabalhava. Com a exposição negativa do vídeo, demais participantes também estão sofrendo represálias.

As polêmicas que cercam os brasileiros assediadores na Copa do Mundo da Rússia ainda não tiveram seu fim. Após a viralização, o ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, deu uma declaração polêmica ao refletir sobre os ocorridos envolvendo os torcedores. Em entrevista ao UOL, o ministro afirmou que os casos ganharam proporções indevidas. “A repercussão foi grande por causa das redes sociais, não pelo fato em si. Porque não morreu ninguém, ninguém foi assassinado. Perante o mundo real, eu entendo o simbolismo, mas o simbolismo não representa nada estatisticamente”, declarou.

O fato de uma personalidade pública, representante do país no âmbito turístico, que relaciona a Copa do Mundo – um evento de proporção internacional -, com um pensamento como este, e usar de sua posição para realizar tais afirmações, enaltece o drama que a cultura e educação masculina evidenciam diariamente. Dentre elas, a inconsciência e a falta de noção de que atitudes negligentes, preconceituosas e misóginas como as ocorridas impactam efetivamente no sexo feminino e nos esforços sociais para que essa disparidade seja minimizada e extinguida nas futuras gerações.

Essa postura é a real comprovação de que atos intoleráveis são vistos e vividos diariamente nos mais diversos ambientes, inclusive no corporativoe empresarial. Sendo alguns exemplos a falta de equiparação salarial, parcela reduzida em cargos de gestão, respeito entre gêneros opostos e a diversidade nas corporações.

A tolerância com o que deveria ser intolerável está nos levando a um cenário insustentável. A face mais asquerosa que o Brasil demonstra foi exposta em um momento em que todo o mundo está em alerta. Fatores que ressaltam como a cultura, que hierarquiza homens e mulheres, está enraizada na sociedade brasileira. São frutos dos erros que há séculos estamos cometendo, diante da diferença entre os próprios seres humanos.

Comportamento nas redes sociais afeta vida profissional

Além desses exemplos dos personagens que envolveram casos na Rússia e que ainda estão sendo investigados por autoridades, há outro caso que pode exemplificar a falta de respeito e atos de misoginia, racismo e preconceito de homens contra mulheres.

Em março desse ano, o episódio envolvendo um executivo que foi demitido após publicar em seu perfil do Twitter que sente “saudade do tempo que mulher dava a b* e não opinião” demonstrou o posicionamento de uma renomada empresa. A ação foi tomada após a filial da empresa Promarc Technology Corporation no Brasil receber reclamações por e-mail de uma seguidora de Milton Vavassori Junior na rede social. O ato fez com que a corporação informasse a demissão do então funcionário – o que vem servindo de alerta para casos semelhantes.

Este exemplo demonstra a necessidade das empresas se posicionarem de maneira assertiva e inibidora diante de fatos como este, coibindo e punindo quaisquer atitudes que representem desrespeito e preconceito contra mulheres em todas as posições, proporções, funções e ambientes, para que somente assim o que já é lei seja de fato cumprido.

 

 

Barrar a diferença de gêneros nas empresas

O ambiente corporativo é um dos espaços onde as diferenças entre os gêneros são as mais notadas. Por isso, atualmente, essa questão no mercado de trabalho tem sido bastante criticada e remodelada, a fim de se adaptar a nova realidade da sociedade moderna, que busca instituir às mulheres uma condição igualitária em relação aos homens. Um exemplo das benfeitorias que as mulheres trazem ao trabalho foi exposto no estudo recente da consultoria McKinsey. Os dados demonstraram que o gênero feminino em cargos de liderança aumenta em 21% a chance de uma empresa ter desempenho financeiro acima da média.

Diante disso, um recomeço para se ver mudanças significativas nessa temática, sugere que as empresas realizem, cada vez mais, iniciativas para alavancar seus resultados por meio da igualdade de gêneros, como um dos principais pontos que contribuem para melhoria nos desempenhos coorporativos e lucrativos das instituições. Além de criar iniciativas internas e externas que contribuam nesse propósito, para o fim da distinção, da segmentação e da discriminação.

É tempo de gerar a união entre todos, para mudarmos nossas posturas e ações, criando uma modificação benéfica nesse cenário, demonstrando civilização e respeito ao próximo, independente do gênero. Uma nova cultura humana e afetiva precisa ser cultivada o quanto antes, nas famílias, nas empresas, entre amigos e nos mais diversos tipos de relacionamento.

 

Autor: Barbara Helena – Analista de Comunicação da MITI Inteligência

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