A INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE ATUAL, COMO PEQUENAS AÇÕES PODEM FAZER A DIFERENÇA

Na manhã do dia 12 de junho de 2016, uma notícia de brutalidade e intolerância chocou o mundo. Na boate Pulse, local voltado para o lazer da comunidade LGBT em Orlando, nos Estados Unidos (EUA), um rapaz de 20 anos disparou sua arma, atirando contra o publico que ali estava, causando a morte de 50 pessoas e deixando dezenas de feridos. Pouco antes, em maio, outra notícia envolvendo a violência urbana, dessa vez no Brasil, gerou comoção nacional – uma menina de apenas 16 anos, moradora do Rio de Janeiro, foi violentada por 30 homens. Na Europa, por sua vez, a situação dos imigrantes é trágica: cerca de 2 mil já se afogaram no mar Mediterrâneo só neste ano, vítimas dos muitos barcos superlotados que tentam chegar à costa da Itália e da Grécia, em busca de segurança, diante dos conflitos na Síria e ao Norte da África.

Em uma sociedade globalizada e, altamente civilizada, em termos históricos, é no mínimo incoerente, a noção de que estas notícias tem se tornado quase que corriqueiras. Percebe-se uma ampliação bastante séria da violação dos direitos humanos: casos de violência contra mulheres e crianças, intolerância racial, religiosa, étnica e de gênero.

Como é possível explicar este antagonismo presente em nosso cotidiano? Numa sociedade moderna onde grande parte das pessoas luta pela liberdade, aceitação e igualdade, que promove iniciativas de proteção ao meio ambiente e aos animais, mas que diante do outro, do semelhante, não o aceitam, ofendem, agridem e discriminam. Num tempo aonde o fluxo de informações é imenso e temos acesso a uma infinidade de informações, o cenário mais provável é que fossemos ainda mais abertos, livres e tolerantes para com o próximo, não?

 

Políticas públicas contra a intolerância

A estrutura social brasileira sempre foi marcada por uma grande desigualdade social. Embora estejamos no século XXI, essa realidade ainda é presente e influencia, de forma significativa, tanto o cenário político, quanto o dia a dia da população, que, devido ao abismo entre classes sociais, há um aumento da intolerância que, surge do desconhecimento, da falta de informação e da consequente insegurança em conviver com aquele que é diferente.

Nesse sentido, políticas públicas que promovem essa aproximação e desmitificam preconceitos, são de fundamental importância. Estas políticas surgem de demandas sociais e colaboram na reconfiguração de um debate já existente, porém, defasado, sobre cidadania e direitos. Embora ainda persistam os questionamentos a respeito da necessidade das ações afirmativas, nota-se que em âmbito governamental, elas já estão bastante consolidadas.

Para auxiliar no enfrentamento à intolerância religiosa, principalmente contra crenças de matriz africana, o Governo Federal lançou, no mês de maio, a campanha #AcrediteNoRespeito. Em conjunto à campanha, há a atuação da Secretaria Especial de Direitos Humanos que, por meio de diversas ações, promove o respeito à diversidade religiosa.

A partir da década de 1990, com a revitalização do Movimento Negro e as pautas sobre igualdade, presentes na Constituição de 1988, o debate sobre a questão racial no Brasil passa a ocorrer de forma descentralizada, tanto na universidade, quanto na periferia. O efeito disso é bastante positivo, pois com o auxílio do debate público acerca desta questão, a população afro-descendente pode ter mais ciência de sua realidade e  direitos.

Para Marcelo Paixão, Economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “o grande impacto das medidas de ação afirmativa foi colocar o tema das desigualdades raciais, mudando a lógica como vínhamos discutindo a questão das desigualdades sociais no Brasil”.

Segundo o IPEA, dados resultantes das ações afirmativas já realizadas em nível governamental atestam o impacto positivo das políticas universais. Nesse sentido, a continuidade destas ações é muito relevante, pois é na construção de pontes que aproximam realidades distintas, que se torna possível impulsionar uma vivência com base na igualdade.

 

Internet e seu papel ambíguo: aliada e oponente

No último dia 27, um menino de 11 anos recorreu à internet para denunciar a agressão sofrida por sua mãe, que após pedir a separação de seu pai, teve o nariz fraturado, pelo mesmo. Na foto postada pelo menino, sua mãe aparece com o rosto ensangüentado, causando, em pouco tempo, uma grande repercussão nas mídias sociais, com um grande número de compartilhamentos.

Na semana anterior, no dia 24, outra denúncia foi realizada através das mídias sociais. A filha de uma empregada doméstica exibe a conversa entre sua mãe e a empregadora, que acaba na demissão da trabalhadora, pela justificativa de ser mãe solteira de três filhos. O caso também gerou uma grande repercussão nas mídias sociais, levando-a a conseguir um novo emprego.

Além de auxiliar nas denúncias de atitudes preconceituosas e violentas, a facilidade de acesso à internet e a comunicação digital existentes hoje, promovem a consequente troca de experiências entre usuários que estão sempre online, possibilitando a criação de grupos de discussão e, de uma comunicação integrada entre pessoas que lutam por respeito, igualdade e liberdade.

No entanto, o contrário também ocorre. As informações compartilhadas em rede podem ter um papel de fomento à intolerância. Como o conteúdo online pode ser publicado por qualquer internauta, todo tipo de discurso, inclusive discursos de ódio, desprezo e intolerância, podem ocorrer na web.  Para combater isso, existe o trabalho das delegacias de crimes virtuais, mas vale ressaltar a importância do monitoramento estratégico de informações para auxiliar no combate a estes discursos, que proliferam rapidamente na internet, exigindo assim, um acesso rápido ao conteúdo disseminado, para que ações possam ser tomadas. Através do monitoramento de informações, é possível, por exemplo, identificar perfis que possuem esse discurso e que têm um grande poder influenciador no público.

Através do monitoramento estratégico, da análise de influenciadores e da análise de repercussão, qualquer empresa, instituição, órgão governamental ou não, pode combater, virtualmente, discursos intolerantes propagados em seu setor, o que lhe garantirá uma visibilidade positiva, diante de seus públicos.

 

Marcas e ações em prol da igualdade        

Através do lema “democracia para todos”, a Avon lançou uma peça publicitária fomentando a igualdade, no lançamento de seu novo BB Cream Matte Avon Color Trend – um creme criado para todas as pessoas, sem distinção de gênero, cor ou etnia.

Com a participação de Liniker, uma das novas vozes da MPB e, que possui um posicionamento bastante engajado nas questões LGBT, a campanha recebeu comentários positivos nas mídias sociais, com tons emotivos e de gratidão por parte do público, que foram respondidos prontamente por parte da Avon.

O Grupo Boticário também lançou uma campanha com foco nas vendas para o Dia dos Namorados, exibindo casais gays e heterossexuais trocando presentes nesta data.

Segundo o Boticário, a proposta da campanha é demonstrar com respeito e sensibilidade, “a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor – independentemente de idade, raça, gênero ou orientação sexual – representadas pelo prazer em presentear a pessoa amada no Dia dos Namorados”.

Estas peças publicitárias estão atentas ao comportamento do consumidor atual, que busca, além da qualidade do produto, uma postura ética da empresa. As peças, também buscaram promover a reflexão do cliente, conscientizando-o da heterogeneidade do público. Ainda que seja delicado discutir a temática sobre preconceito e intolerância, promover campanhas que fujam do senso comum é sempre positivo, conquistando e fidelizando clientes.

 

Geração Z e a sua prejudicial independência

A geração Z é conhecida por ser a geração nascida a partir do ano de 1995. É uma geração de crianças e adolescentes constantemente conectados nas mídias sociais e em canais de informação (leia mais sobre o tema aqui link). De acordo com dados do último censo demográfico realizado pelo IBGE, em 2010, o Brasil possuía 11,6 milhões de “Zs”, ou seja, já representavam 6,0% dos 190,7 milhões de habitantes do país.

Mas, se por um lado a tecnologia contribui para uma geração inteligente, por outro, ela pode construir indivíduos egocêntricos e sem empatia com o próximo, conectados apenas aos seus computadores, celulares ou tablets, e não ao mundo à sua volta. Portanto, será que poderemos contar com essa geração para impedir ações discriminatórias no futuro?

Há uma urgente necessidade por parte dos pais, e até mesmo da sociedade, em incentivar a revisão dos valores desta geração, atentando para a valorização da empatia, respeito e coletividade, na tentativa de construir uma sociedade respeitosa e tolerante.

Observa-se, portanto, que diante da “banalização da violência”, nos termos de Hannah Arendt, a sociedade civil precisa tomar decisões e medidas para combater essa intolerância que bate à porta. Seja através da formação dos jovens, voltada para a consciência de seu papel no mundo, seja através de ações empresariais, do monitoramento estratégico do comportamento discriminatório nas redes sociais, ou até mesmo, da cobrança e envolvimento da população em medidas governamentais, que propõem o combate à atitudes de intolerância. O importante é que a sociedade permaneça chocada com crimes, como os apresentados aqui e, não os aceite como consequência da estrutura social moderna, se organizando para impedir que, no futuro, atos de violência gratuita, tornem-se parte do cotidiano das novas gerações.

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