A INFLUÊNCIA DA IMPRENSA E DO GOVERNO NO COMBATE AO MOSQUITO AEDES AEGYPTI

Apesar das inúmeras campanhas de conscientização e mutirões de combate a focos, casos de dengue, chikungunya e zika, os vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti aumentam no país a cada ano. Eleito o maior inimigo da saúde atual no Brasil, o mosquito Aedes aegypti pode ter sido eliminado por um tempo, mas retornou com ainda mais força nos últimos meses, preocupando toda a população brasileira, principalmente devido ao zika vírus, que está relacionado ao surto de microcefalia no país. O culpado por tudo isso? A resposta não é exata, mas uma coisa sabemos, está longe de ser o mosquito. Seria o governo que deveria investir mais em políticas públicas de combate? Seriam os veículos de comunicação que deveriam informar a população sobre a situação com dados fundamentados e confiáveis? Ou a população que deveria estar atenta ao acúmulo de água em condições irregulares em casa? Responsabilizar fatores isolados pode ser muito fácil, mas não é isso que vai eliminar os focos do mosquito.  Eliminar o mosquito, independente de quem seja a culpa, é a atual missão de todos nós, e ao pensar nisso nos perguntamos: Como a comunicação pode cumprir seu papel para evitar uma epidemia nacional?

 

A repercussão de casos de epidemia mundo afora e a atuação da imprensa

Em 2014, um surto de ebola fez com que o governo da Libéria reprimisse a imprensa, de acordo com informações do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), assumindo a emissão de credenciais para jornalistas locais e internacionais que desejassem cobrir a doença no país e impedindo que profissionais de saúde dessem declarações a profissionais de mídia. Os jornalistas que realizassem entrevistas, fotografias, gravações e filmagens sem uma aprovação oficial por escrito poderiam ser presos ou processados, revelando como as autoridades queriam controlar a disseminação das informações e como o surto era apresentado à população.

A fim de conter o pânico, o rádio serviu como principal fonte de informações nas comunidades atingidas pelo surto, com algumas emissoras dedicando horas de transmissão para acalmar a população e esclarecer dúvidas sobre o vírus, bem como jornais oferecendo espaço gratuito para a veiculação de comunicados de saúde.

Com isso, a parceria entre jornalistas e governo, que inicialmente parecia não funcionar visto as acusações sobre a postura dos jornalistas, foi reafirmada com todo o apoio necessário através de treinamentos para a imprensa sobre como reportar responsavelmente notícias sobre o vírus. A transmissão de mensagens mais cautelosas acabou auxiliando a amenizar desconfianças da população sobre as intenções do governo de colocar os contaminados em quarentena, beneficiando tanto a imprensa quanto o governo, que recuperaram a confiabilidade perante a sociedade.

Tendo em vista que grande parte da população “enxerga” pelos olhos da notícia, a responsabilidade ética que envolve a profissão do jornalista é crucial como formadora de opiniões, a qual tem o dever social de informar a população de forma correta e imparcial.

 

O papel da comunicação no Brasil contra o mosquito Aedes aegypti

No caso do Brasil, há diversas contradições a respeito do elemento causador da microcefalia em recém-nascidos, inclusive desmistificando que o responsável pela doença seria o Zika vírus. Segundo um grupo de médicos da América do Sul, as deformações cerebrais são causadas pela pulverização através do despejo de um larvicida químico na água potável consumida pela população afetada. Atreladas a este fato, estão acusações ao governo e às autoridades de saúde,alegando que estes estão tentando ignorar sua responsabilidade e escondendo que os danos foram causados por produtos químicos fabricados por poderosas corporações globais. Paralelo a isso, há o fato de que o Zika vírus nunca foi conhecido por causar deformações cerebrais em crianças. Não há registros de microcefalia em países que já foram afetados em pelo menos 75% da população, como a Colômbia.

Por outro lado, o governo parece não compreender as causas da microcefalia tanto quanto a população e, está investindo milhões de reais em campanhas, pesquisas e vistorias para que a solução seja encontrada. O jornal inglês The Guardian apontou que especialistas em saúde não têm certeza de por que o vírus se espalhou tão rapidamente no Brasil, mas alertam que grandes eventos turísticos, como os Jogos Olímpicos Rio 2016, podem dar a oportunidade do vírus se espalhar para outras partes do mundo. Entretanto, a luta contra o mosquito tem incentivado o governo a disponibilizar um investimento de R$ 649 milhões para o Plano de Enfrentamento ao Aedes aegypti e à Microcefalia.

Da mesma forma, a crítica também é direcionada à imprensa, que deveria publicar reportagens não somente quando o problema já foi instaurado, mas focar em reportagens preventivas que, por sua vez, mobilizam o governo a tomar medidas efetivas antes que o problema já tenha surgido. São os veículos de comunicação que colocam o poder público em saia justa, exigindo e fazendo com que ele forneça respostas para questões importantes.

Entretanto, nem todo veículo de comunicação consegue fazer isso de forma efetiva. Algumas trazem determinado assunto – os polêmicos, principalmente – de forma superficial, trazendo muitas vezes mais confusão que informação e colaborando para uma visão distorcida da realidade. O caderno de Ciência e Tecnologia da edição eletrônica do Jornal Brasil, por exemplo, publicou uma matéria intitulada “Cidades do interior de São Paulo e Paraíba cancelam carnaval por causa do Zika vírus”, que informa sobre o cancelamento dos carnavais de 2016 pelas prefeituras das cidades paulistas de Nova Odessa e Capivari e das cidades paraibanas de Patos, Santa Rita e João Pessoa. O que prejudica a reportagem acaba por ser o subtítulo “ao invés de combater a doença, prefeituras suspendem a festa mais aguardada do ano”, que traz a ideia de que as prefeituras citadas não estão cumprindo a sua parte no combate ao mosquito, não apresentando sequer o lado de seus representantes.

Diante do cenário desfavorável, o jornalismo e demais profissionais da comunicação, devem acima de tudo apresentar argumentos adequados e contrapontos, a fim de não correrem o risco de parecer superficial ou parcial, sempre buscando informar a verdade em prol da sociedade. Apesar do imediatismo com que as coisas são informadas, os veículos e até mesmo autoridades precisam de muita cautela antes de dar declarações, evitando casos como o do ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Castro, que teve de se desculpar após ter afirmado que torcia para que as mulheres pegassem Zika antes da gravidez.

 

A mídia internacional na divulgação do combate ao vírus

Causando cada vez mais preocupação, os indícios de zika vírus em 23 países na América, África e Oceania – sendo o Brasil o mais afetado – despertaram os veículos de comunicação internacionais a divulgarem a situação sob seus pontos de vista a respeito do surto de microcefalia. A grande repercussão que este vírus tem tomado mundo afora influencia diretamente outros acontecimentos, como as Olimpíadas 2016. A revista “Forbes” pediu em artigo publicado dia 3 de fevereiro o cancelamento do evento devido aos riscos do surto, criticando também a poluição na Baía de Guanabara. O Brasil, como resposta, disse que não há a possibilidade de cancelarem as Olimpíadas e, reiterou que medidas serão tomadas para proteger as gestantes da ameaça do vírus.

O jornal The New York Times apontou a recomendação do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC) para que grávidas adiem viagens para 14 regiões afetadas pelo zika vírus, incluindo o Brasil, afirmando que “os mosquitos estão sendo mais espertos que seus oponentes humanos”. Além dos EUA, cinco países – Colômbia, Jamaica, República Dominicana, Equador e El Salvador – também recomendaram que mulheres em idade reprodutiva evitem engravidar nos próximos meses; para o governo de El Salvador até 2018.

Já o The Washington Post retratou casos de mães brasileiras que deram à luz crianças com microcefalia em matéria com título “Brasileiros em pânico com vírus transmitido por mosquito ligado a danos cerebrais em milhares de bebês”.

 

Como as instituições de saúde podem ajudar na luta contra o mosquito Aedes aegypti

Em parceria com o projeto TelessaúdeRS/UFRGS e o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), a Secretaria Estadual da Saúde (SES) lançou duas novas frentes para  orientar a população e agilizar as denúncias de locais com foco do mosquito. Uma delas é o aplicativo RS Contra Aedes, que possibilita o usuário denunciar locais com foco através do envio de fotos, obter informações sobre as doenças, combater o mosquito em sua própria casa por meio de um questionário, entre outras funcionalidades. A outra ferramenta consiste em uma sala de monitoramento formada por uma equipe de profissionais da SES, do TelessaúdeRS/UFRGS e de outras instituições que verificam todas as denúncias recebidas e orientam os municípios em suas atividades de inspeção e prevenção de focos do mosquito.

Ressalta-se, portanto, a importância que o monitoramento de informações tem dentro das instituições de saúde para o combate ao mosquito Aedes aegypti. Através de uma plataforma de monitoramento de informações, pessoas com dúvidas a respeito da dengue,chikungunya ou zika podem ser facilmente identificadas para, posteriormente, serem respondidas rapidamente pelas instituições de saúde. Indicações de locais inseguros, participação da população em fóruns, blogs, mídias sociais e outros meios digitais também são fatores facilmente verificados de forma ágil, otimizando as ações contra a proliferação do mosquito.

Mais que cumprir com o seu papel de divulgar informações verdadeiras e completas de forma transparente, os órgãos governamentais podem e devem incentivar a adoção de hábitos saudáveis tanto na imprensa quanto na população, estimulando-os a ter conhecimento mais amplo sobre o cenário da saúde, além de destinar esforços para o saneamento e limpeza pública. Os meios de comunicação, além de terem o dever de serem imparciais e não superficiais, também podem e devem abordar questões pouco exploradas nas reportagenscomo o saneamento básico e o racionamento de água, os quais favorecem a proliferação do mosquito. Já a população também tem papel crucial nesta batalha. Ela precisa ter um envolvimento proativo, promovendo cuidados e incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo. Enquanto não temos a vacina, a parceria entre as três partes é a única chance de vencer essa guerra.

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